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sábado, 13 de dezembro de 2014

A neurociência na tomada de decisão


Tomar uma decisão simples nem sempre é fácil, pois inúmeros centros neurais estão envolvidos nesse processo. A cada etapa de uma escolha, diferentes áreas do cérebro entram em ação

Tomar uma decisão simples não é tão fácil como, muitas vezes, pode parecer. Inúmeros centros neurais estão envolvidos nesse processo. A cada etapa da tomada de decisão, diferentes áreas do cérebro entram em ação. E nem percebemos. Uma delas, o sistema límbico, conhecido como sistema emocional, destaca-se quando há perigo envolvido nessa decisão: viajar de avião ou de automóvel? Enfrentar uma cobra cascavel ou sair correndo? Pular de paraquedas ou ir ao cinema? Nem todos podem ser ousados: não é uma questão de querer, é de poder ser. Para entendermos melhor como a tomada de decisão acontece é preciso saber o que é a Coerência cardíaca e como ela age. De maneira sucinta, a coerência é um estado de estabilização emocional, psicológico e fisiológico onde ocorre harmonia, autoconhecimento e autocontrole, comandados pelo ritmo do coração.

A amígdala, também conhecida como corpo amigdaloide, pequeno centro neural em forma de amêndoa, localizada no lobo cerebral temporal, está no centro dessa orquestração. Considerada um importante computador emocional, ela tem por função nos proteger de ameaças provindas do meio ambiente e de nós mesmos. Se há alguma ameaça em potencial, real ou imaginária, a amígdala reage rapidamente, fazendo com que fiquemos em estado de alerta. E isso pode fazer uma grande diferença na tomada de decisão. “Parece que as emoções desempenham um papel crítico na tomada de decisões e elas interagem com os mecanismos cognitivos de decisão durante o processo de tomada de decisão”, comenta Vasily Klucharev, do Departamento de Psicologia da High School of Economics, na Basiléia.
Após a ocorrência de estímulos excitatórios, os impulsos elétricos percorrem nosso cérebro em alta velocidade. As informações do meio ambiente chegam à amígdala em cerca de 120 milissegundos. Depois, essas informações vão para o córtex pré-frontal, área responsável pelo planejamento e execução de tarefas: quando f icamos conscientes do fato, mais 300 milissegundos se passaram. Parece pouco tempo, mas é uma eternidade em termos neurais.
Outros centros neurais estão envolvidos na tomada de decisão, como: o striatum ventral – no núcleo accumbens, onde ocorre a liberação de dopamina – centro relacionado à emoção por antecipação e expectativa de ocorrência de um evento esperado; córtex orbitofrontal, que compara e integra múltiplas informações sobre a recompensa pela decisão; e o córtex préfrontal dorsolateral, responsável pelo controle cognitivo e planejamento.
Em 2003, Daniel Kahneman publicou, na revista American Psychologist, um trabalho demonstrando a possibilidade de haver dois sistemas para tomada de decisão, aos quais chamou de sistema 1 (intuição) e sistema 2 (raciocínio). No caso da intuição, a tomada de decisão se desenvolve em alta velocidade, emocionalmente carregada. Pode integrar grandes quantidades de informações, porque ele as processa de forma paralela. O sistema racional é lento, processa as informações em sequência, é controlável e consome muita energia. Porém, tem a vantagem de ser f lexível.
Treinamento monitorado usando biofeedback cardíaco contribui, substancialmente, para prevenção de doenças físicas e psicológicas, promoção da saúde e do bem-estar
Se vamos marcar um encontro num barzinho, com alguém que estamos, de alguma forma, emocionalmente envolvidos, o sistema intuitivo entra em cena e assume a liderança no processo decisório: escolhe determinado local que é de agrado dos dois. Porém, se fôssemos usar o sistema racional, faríamos uma lista de todos os barzinhos da cidade, com suas distâncias e preços. Só depois de horas iríamos decidir aonde ir. E perderíamos o encontro.
Sabemos que quando estamos emocionalmente desequilibrados, estressados ou ansiosos nossas decisões nem sempre são as melhores. Um modo de equilibrar nossas emoções e termos melhores condições de tomar decisão é equilibrando a atividade do sistema nervoso visceral, conseguido por meio de exercícios realizados em um estado denominado coerência cardíaca. Nesse estado há reequilíbrio de funções autônomas, fazendo com que os ramos simpático e parassimpático se harmonizem. Existem algumas formas de se treinar o estado de coerência cardíaca, mas o mais fácil e objetivo é usando sensores debiofeedback cardíaco e programas de computador, que monitoram e orientam a pessoa. No centro de inovação da Universidade de São Paulo, foi desenvolvido o biofeedback cardioEmotion, que tem esse propósito: treinamento da coerência cardíaca.
Coerência cardíaca é um estado singular de equilíbrio psicoemocional, modulado pelo sistema nervoso autônomo e pelo sistema límbico (sistema das emoções). Ela propicia o autoconhecimento e autorregulação f isiológica. Treinamento monitorado usando biofeedback cardíaco contribui, substancialmente, para prevenção de doenças físicas e psicológicas, promoção da saúde e do bem-estar. A coerência é observada num gráf ico de batimentos cardíacos pelo aparecimento de ondas cardíacas harmônicas, na forma sinusal, como sinos.
A coerência cardíaca tem um papel muito importante na redução da hiperreatividade da amígdala. Com o treinamento, f icamos mais concentrados, tomamos melhores decisões, desenvolvemos a intuição, temos maior foco, melhoramos a socialização. Vários processos mentais em desarmonia, como os que ocorrem nos casos de quadros de estresse, ansiedade, pânico, déf icit de atenção e estresse pós-traumático prejudicam o equilíbrio do sistema nervoso visceral. A coerência cardíaca pode ser tremendamente benéf ica para o reequilíbrio emocional, favorecendo a tomada de decisão e a intuição.

Fonte: Revista Psique 

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