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sábado, 13 de setembro de 2014

Quem avalia os avaliadores Assisti à formação de uma cultura universitária orientada para a competição em torno das melhores notas, consequentemente de mais bolsas, incentivos e facilidades





Acompanhei a implantação do atual sistema de avaliação das pós-graduações brasileiras. Vi surgir esta mistura de imposto de renda, certificado de cidadania e cartão de racionamento alimentar do pesquisador, chamado Currículo Lattes. Assisti também à formação de uma cultura universitária orientada para a competição em torno das melhores notas, consequentemente de mais bolsas, incentivos e facilidades consoante a produtividade. Testemunhei velhos mamutes intelectuais resistirem majestosamente ao novo sistema em nome da honra, da erudição e do antigo espírito universal da ciência. Ainda não vivi isso, mas torço muito para que minha colega de Mente e Cérebro Suzana Herculano-Houzel consiga nos ajudar a profissionalizar a condição do pesquisador no Brasil. 
O vídeogame da produtividade acadêmica funciona mais ou menos assim. Tudo o que você faz – palestra, banca, aula, orientação, artigo, livro, tradução, curso, parecer, congresso, reunião de departamento e que tais – é classificado. Os artigos têm rankings, os livros menos, mas também. As citações que você recebe ou faz também valem ponto, medindo o impacto de suas publicações. Se seus alunos publicam vale também, se publicam com você mais ainda. Se seus colegas de departamento publicam mais, você se escora neles. Se eles publicam menos, eles se escoram em você. Se alguns não publicam todo mundo afunda junto. Se quiser publicar fora de sua área pode, claro que pode, mas vale menos. Quer escrever para divulgar a ciência ou formar consensos e políticas públicas? Ótimo, mas não vale quase nada. Todo ano cada pós-Graduação entrega relatórios cruzando dados e o Lattes de todos os professores. A cada três anos há uma conta geral e distribuem-se notas 7 e 6 se você tem nível internacional; 5 e 4 se está jogando o Campeonato Brasileiro; 3 se está indo para a segunda divisão e 2 ou 1 se a vaca está atolada ou afundando no brejo. Isso sem falar da posição no ranking da universidade em que você está. 
O espírito do sistema está baseado em duas grandes regras: avaliação pelos pares (sem isso você não publica) e comparação escalonada de quantidades produzidas (quantidade explícita e qualidade presumida). Aí tem os vários circuitos nos quais você pode escolher jogar: nacional, regional, internacional; associações de pesquisa (como a Anpep, de professores de pós-graduação); associações de área (como a Abrapso, de psicologia social); grupos por linha ou tema (como as escolas de psicanálise); além dos que se dedicam aos próprios comitês e equipes de avaliação da Capes (do Ministério da Educação) ou do CNPq (do Ministério da Ciência e Tecnologia).
O sistema parece equalizar diferenças de modo objetivo, comparando e distribuindo de forma meritocrática recursos que não são ilimitados, certo? Errado.  Ao menos na Psicologia nem a mais benfazeja compulsão avaliativa, apoiada em sólidos princípios numéricos, consegue impedir a incrível e inexplicável coincidência entre as melhores notas do país e os programas de pós-graduação com professores que estão no Comitê de Avaliação de Área. Moral da história: uma verdadeira política científica precisa ter além de regras, manuais e métodos.
Mais de Christian Dunker

Fonte: Mente & Cérebro

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